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“Mulher sofrendo de AIDS no posto de saúde de Marrere. Essa clínica/hospital que serve aos residentes da área, era uma antiga igreja católica”

PAÍS, REGIÃO: Moçambique, Norte
LOCAL: Nampula
DATA DA FOTO: 1991
PROJETO: Posto de Saúde de Marrere
RESPONSÁVEL: Cooperação Canadá-Moçambique

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“Seção de informação de como usar um preservativo em uma comunidade rural da província de Nampula”.

Inimigo Invisível de Moçambique

De Charles Mangwiro

O Land-rover levanta imensas nuvens de poeira vermelha ao dirigir para Ribaué, um distrito rural na isolada região norte de Moçambique. Enxergando através do brilho das dispersas casas com tijolos de barro, o que choca mais é o isolamento. Apesar disto, existem estradas. E onde existem estradas, existem caminhões. Barulhentos e engasgados, esses caminhões transportam bens e produtos de cidade para cidade. Também carregam passageiros. Que por sua vez, carregam doenças, incluindo de tudo um pouco, desde uma gripe à AIDS.

É aqui que a organização de saúde pública moçambicana conhecida como ‘Salama’ luta suas batalhas contra o isolamento que não é suficientemente absoluto para prevenir a disseminação do HIV/AIDS. ‘Salama’, que quer dizer boa saúde na língua local (eMacua), foi uma das primeiras organizações no combate à AIDS estabelecidas no norte e a primeira no distrito de Ribaué. Eles conhecem essa área, sua cultura e seus problemas de saúde. Eles têm programas que lidam com a prevenção e gestão da diarréia; trabalham com as comunidades para encorajá-las a participar dos programas de vacinação do governo; trabalham para melhorar a nutrição da mulher e das crianças; fornecem cuidados pré-natal.

Ribaué é um distrito arrasado pela pobreza, acessível somente via estradas esburacadas que se tornam impossíveis de transitar durante a estação da chuva. Sua população de cerca de 500.000 habitantes depende da agricultura de subsistência; o nível de analfabetização é super elevado devido a falta de recursos financeiros adequados e a fatores culturais, incluindo os casamentos prematuros. É também uma dessas áreas rurais que a AIDS era considerada como um mito. Em uma recente visita à região, um repórter da Reuters descobriu que a pobreza e a falta de educação básica tem sido os principais bloqueios para as campanhas contra a AIDS. Ganhar a vida é mais importante do que a educação.

Apesar de já terem ouvido falar da doença, as pessoas pedem provas de sua existência tal como a que foi apresentada por um aidético. Mário Luciano, um comerciante de 26 anos que se encontrou com o nosso repórter na sua barraca improvisada em Mape, disse que já ouviu falar de AIDS, mas que não acredita que exista.

“Não existe prova. Escutei que é a doença mais terrível e que é incurável e que mata. Quero ver alguém para então acreditar. Não me importo ir a seminários contra AIDS, mas não uso um preservativo”, disse ele e perguntou: “como poderei tomar banho usando uma capa de chuva?”

O governo e as ONGs locais e internacionais uniram suas forças, buscando aprovar um Plano Estratégico Nacional para o combate de DSTs/HIV/AIDS.

O plano tem um foco multi-setorial, mobilizando os esforços dos setores da saúde, educação, bem-estar social, agricultura e desenvolvimento rural, transporte, indústria e defesa.

O trabalho da Salama em Ribaué envolve um grande número de iniciativas, incluindo o treinamento de mulheres voluntárias e das parteiras tradicionais de forma a gerar conscientização sobre os cuidados de saúde comunitária e reprodutiva em vilarejos remotos.

A Salama juntou recentemente cerca de 50 voluntários, espalhados por todo o distrito, que pareciam estar fazendo um progresso significativo com a campanhas de combate a disseminação da AIDS. Seu atual projeto em Ribaué está se dedicando ao alto nível de mortalidade e morbidade infantil maternal causada pelo fraco planejamento familiar, complicações no nascimento, diarréia, parasitas, infecções respiratórias, malnutrição, malária e DSTs/HIV/AIDS.

Micael Sale, a diretora executiva da Salama, disse que muitos métodos foram usados para espalhar a mensagem às comunidades. “Usamos peças de teatros, tabelas e panfletos na maioria das nossas atividades. Não é fácil, mas as pessoas terminam compreendendo”, disse ela.

De acordo com Sale, o entendimento das doenças sexualmente transmitas é viável. “Gonorréia e sífilis são as mais comuns DSTs aqui, e são a base das nossas atividades”, disse ela.

Um ativista em AIDS trabalhando com a Salama em Cunle disse que foi mais difícil no começo, mas agora as pessoas estão se interessando mais.

“As pessoas aqui realmente se preocupam com a educação em AIDS, apesar de não estarem certas das circunstâncias”, disse um ativista. “Tabus e outros fatores tradicionais são ainda o maior desafio, mas com o tempo serão eliminados. Eles nos procuram em segredo e nos pedem preservativos e informações relacionadas com DSTs e AIDS”.

A população rural começou a responder positivamente à possibilidade de prevenção de muitas outras infecções e de reduzir o impacto das existentes.

Os aldeões na localidade de Mape se envolveram com atividades que incluem a informação, educação e a promoção do preservativo. Jorge Iaumuriua, secretário do vilarejo, disse que a maior vantagem é estar trabalhando com grupos de risco, ou seja, adolescentes sexualmente ativos, comerciantes ambulantes e prostitutas.

“Para nós, a AIDS é muito assustadora, apesar de nenhum de nós ter visto alguém infectado ou ter sido morto nessa região”, disse ele. “Nós escutamos a esse respeito no rádio, mas isto não impede que paremos de insistir com as pessoas para prevenir sua disseminação por meio da abstenção completa”, disse ele.

De acordo com Iaumuriua, os altos níveis de analfabetização e pobreza, os orçamentos limitados, a comunicação e transporte inadequado e mão-de-obra não qualificada tornam difícil implementar iniciativas de prevenção efetivas para tratar com infecções atuais e futuras do HIV.

“Para nós aqui, dependemos da Salama”, disse Iaumuriua. “Estamos progredindo significativamente com nossos esforços para romper com os tabus. As pessoas sabem a respeito da AIDS e estão muito preocupadas, mas não podem falar abertamente a este respeito. Estamos felizes em ver nossos adolescentes, apesar de poucos ainda, escutarem os rádios para saberem mais sobre os programas de AIDS. É um grande passo”.

A baixa condição social da mulher em muitas comunidades torna difícil a proteção delas. Muitas mulheres se envolvem em casamento prematuros.

Belinha Jorge, uma garota de 16 anos que abandonou a escola primária e é mãe de dois filhos, disse que não usa preservativos, mas que gostaria de protegê-la da contaminação da AIDS. “Já vi isto, mas não sei para que serve. Pensei que era uma bexiga e cada vez que via, dava ao meu filho para brincar”, disse ela.

Entretanto sua entusiasmada vizinha, Almélia João, uma mãe solteira de 25 anos, elogiava a Salama pelo seus esforços em lançar atividades contra a AIDS. “Não sabia o que era a AIDS antes da vinda da Salama”, disse João. “Costumava ter sexo sem nenhuma proteção e com vários parceiros, mas agora fui ensinada a ter um parceiro e a usar um preservativo para fazer sexo ocasionalmente”.

Os mesmos sentimentos foram compartilhados por um outro aldeão chefe de Cunle, Daniel Janeque, que disse que as campanhas maciças contra AIDS estão mudando o comportamento sexual.

Janeque encontrou com o repórter da Reuters em um bar local, sob uma árvore, em uma tarde quente e úmida de Cunle, onde uma mulher idosa estava vendendo Kachasu, uma bebida fermentada tradicional preparada feita predominantemente de cereal de milho, fertilizante e água de bateria. “Falamos sobre isto na nossa bebedeira” - disse Janeque, “que é o melhor lugar para conversar abertamente”. Também distribuímos preservativos e insistimos que as pessoas os usassem. Essa é a nossa contribuição para apoiar os esforços do governo e das ONGs, espalhando a mensagem e quebrando com o silêncio”.

“Encontros que reúnem as mulheres e homens são sempre feitos aqui. Isto é para facilitar e simplificar as mensagens trazidas na forma de panfletos por essas ONGs”, acrescentou Janeque.

O governo estima que entre 600 a 700 pessoas sejam infectadas com o vírus HIV em Moçambique todos os dias, dos quais 70% são adultos economicamente ativos com mais de 20 anos. Vinte por cento são crianças com menos de quatro anos que são infectadas pela mãe que transmite para a o bebê. Acredita-se que no mínimo dois milhões de pessoas possam estar vivendo com AIDS.

O governo teme que o desenvolvimento nos corredores de Nacala e Maputo, assim como outros projetos econômicos principais, possa estimular o crescimento de pandemia. Outros fatores incluem a vida familiar e comunitária rompida por causa de uma guerra brutal que deu a Moçambique o título de país mais pobre do globo, causando movimentos populacionais maciços e o influxo de mão-de-obra migratória.

Assim como os caminhões fazem barulho nas cidades, a Salama espalha a mensagem, encorajando as pessoas, acima de tudo, a conversar com seus vizinhos, nas suas casas, enquanto estão enfileirados nos poços d’água, ou enquanto estão bebendo em um bar local. Isto parecer estar funcionando. Na América do Norte, a disponibilidade de televisões assegura com que mensagens atinjam uma grande massa. Na África rural, as pessoas conversam. Entender a importância deste simples e tradicional método de comunicação é uma forma de assegurar com que a batalha contra a AIDS continue.

Este artigo foi escrito como parte de um esforço coletivo sobre o Dia Mundial da AIDS pela CARE Canada, COCAMO (Cooperação Canadá-Moçambique), ICAD (Coalizão Internacional sobre AIDS e Desenvolvimento - Interagency Coalition on AIDS and Development), e PAC (Parceria África-Canadá - Partnership Africa Canada).