Apesar
de já terem ouvido falar da doença, as pessoas
pedem provas de sua existência tal como a que foi
apresentada por um aidético. Mário Luciano,
um comerciante de 26 anos que se encontrou com o nosso repórter
na sua barraca improvisada em Mape, disse que já
ouviu falar de AIDS, mas que não acredita que exista.
Não
existe prova. Escutei que é a doença mais
terrível e que é incurável e que mata.
Quero ver alguém para então acreditar. Não
me importo ir a seminários contra AIDS, mas não
uso um preservativo, disse ele e perguntou: como
poderei tomar banho usando uma capa de chuva?
O
governo e as ONGs locais e internacionais uniram suas forças,
buscando aprovar um Plano Estratégico Nacional para
o combate de DSTs/HIV/AIDS.
O
plano tem um foco multi-setorial, mobilizando os esforços
dos setores da saúde, educação, bem-estar
social, agricultura e desenvolvimento rural, transporte,
indústria e defesa.
O
trabalho da Salama em Ribaué envolve um grande número
de iniciativas, incluindo o treinamento de mulheres voluntárias
e das parteiras tradicionais de forma a gerar conscientização
sobre os cuidados de saúde comunitária e reprodutiva
em vilarejos remotos.
A
Salama juntou recentemente cerca de 50 voluntários,
espalhados por todo o distrito, que pareciam estar fazendo
um progresso significativo com a campanhas de combate a
disseminação da AIDS. Seu atual projeto em
Ribaué está se dedicando ao alto nível
de mortalidade e morbidade infantil maternal causada pelo
fraco planejamento familiar, complicações
no nascimento, diarréia, parasitas, infecções
respiratórias, malnutrição, malária
e DSTs/HIV/AIDS.
Micael
Sale, a diretora executiva da Salama, disse que muitos métodos
foram usados para espalhar a mensagem às comunidades.
Usamos peças de teatros, tabelas e panfletos
na maioria das nossas atividades. Não é fácil,
mas as pessoas terminam compreendendo, disse ela.
De acordo com Sale, o entendimento das doenças sexualmente
transmitas é viável. Gonorréia
e sífilis são as mais comuns DSTs aqui, e
são a base das nossas atividades, disse ela.
Um
ativista em AIDS trabalhando com a Salama em Cunle disse
que foi mais difícil no começo, mas agora
as pessoas estão se interessando mais.
As
pessoas aqui realmente se preocupam com a educação
em AIDS, apesar de não estarem certas das circunstâncias,
disse um ativista. Tabus e outros fatores tradicionais
são ainda o maior desafio, mas com o tempo serão
eliminados. Eles nos procuram em segredo e nos pedem preservativos
e informações relacionadas com DSTs e AIDS.
A população rural começou a responder
positivamente à possibilidade de prevenção
de muitas outras infecções e de reduzir o
impacto das existentes.
Os aldeões na localidade de Mape se envolveram com
atividades que incluem a informação, educação
e a promoção do preservativo. Jorge Iaumuriua,
secretário do vilarejo, disse que a maior vantagem
é estar trabalhando com grupos de risco, ou seja,
adolescentes sexualmente ativos, comerciantes ambulantes
e prostitutas.
Para nós, a AIDS é muito assustadora,
apesar de nenhum de nós ter visto alguém infectado
ou ter sido morto nessa região, disse ele.
Nós escutamos a esse respeito no rádio,
mas isto não impede que paremos de insistir com as
pessoas para prevenir sua disseminação por
meio da abstenção completa, disse ele.
De
acordo com Iaumuriua, os altos níveis de analfabetização
e pobreza, os orçamentos limitados, a comunicação
e transporte inadequado e mão-de-obra não
qualificada tornam difícil implementar iniciativas
de prevenção efetivas para tratar com infecções
atuais e futuras do HIV.
Para
nós aqui, dependemos da Salama, disse Iaumuriua.
Estamos progredindo significativamente com nossos
esforços para romper com os tabus. As pessoas sabem
a respeito da AIDS e estão muito preocupadas, mas
não podem falar abertamente a este respeito. Estamos
felizes em ver nossos adolescentes, apesar de poucos ainda,
escutarem os rádios para saberem mais sobre os programas
de AIDS. É um grande passo.
A
baixa condição social da mulher em muitas
comunidades torna difícil a proteção
delas. Muitas mulheres se envolvem em casamento prematuros.
Belinha
Jorge, uma garota de 16 anos que abandonou a escola primária
e é mãe de dois filhos, disse que não
usa preservativos, mas que gostaria de protegê-la
da contaminação da AIDS. Já vi
isto, mas não sei para que serve. Pensei que era
uma bexiga e cada vez que via, dava ao meu filho para brincar,
disse ela.
Entretanto
sua entusiasmada vizinha, Almélia João, uma
mãe solteira de 25 anos, elogiava a Salama pelo seus
esforços em lançar atividades contra a AIDS.
Não sabia o que era a AIDS antes da vinda da
Salama, disse João. Costumava ter sexo
sem nenhuma proteção e com vários parceiros,
mas agora fui ensinada a ter um parceiro e a usar um preservativo
para fazer sexo ocasionalmente.
Os mesmos sentimentos foram compartilhados por um outro
aldeão chefe de Cunle, Daniel Janeque, que disse
que as campanhas maciças contra AIDS estão
mudando o comportamento sexual.
Janeque
encontrou com o repórter da Reuters em um bar local,
sob uma árvore, em uma tarde quente e úmida
de Cunle, onde uma mulher idosa estava vendendo Kachasu,
uma bebida fermentada tradicional preparada feita predominantemente
de cereal de milho, fertilizante e água de bateria.
Falamos sobre isto na nossa bebedeira - disse
Janeque, que é o melhor lugar para conversar
abertamente. Também distribuímos preservativos
e insistimos que as pessoas os usassem. Essa é a
nossa contribuição para apoiar os esforços
do governo e das ONGs, espalhando a mensagem e quebrando
com o silêncio.
Encontros
que reúnem as mulheres e homens são sempre
feitos aqui. Isto é para facilitar e simplificar
as mensagens trazidas na forma de panfletos por essas ONGs,
acrescentou Janeque.
O governo estima que entre 600 a 700 pessoas sejam infectadas
com o vírus HIV em Moçambique todos os dias,
dos quais 70% são adultos economicamente ativos com
mais de 20 anos. Vinte por cento são crianças
com menos de quatro anos que são infectadas pela
mãe que transmite para a o bebê. Acredita-se
que no mínimo dois milhões de pessoas possam
estar vivendo com AIDS.
O
governo teme que o desenvolvimento nos corredores de Nacala
e Maputo, assim como outros projetos econômicos principais,
possa estimular o crescimento de pandemia. Outros fatores
incluem a vida familiar e comunitária rompida por
causa de uma guerra brutal que deu a Moçambique o
título de país mais pobre do globo, causando
movimentos populacionais maciços e o influxo de mão-de-obra
migratória.
Assim
como os caminhões fazem barulho nas cidades, a Salama
espalha a mensagem, encorajando as pessoas, acima de tudo,
a conversar com seus vizinhos, nas suas casas, enquanto
estão enfileirados nos poços dágua,
ou enquanto estão bebendo em um bar local. Isto parecer
estar funcionando. Na América do Norte, a disponibilidade
de televisões assegura com que mensagens atinjam
uma grande massa. Na África rural, as pessoas conversam.
Entender a importância deste simples e tradicional
método de comunicação é uma
forma de assegurar com que a batalha contra a AIDS continue.
Este
artigo foi escrito como parte de um esforço coletivo
sobre o Dia Mundial da AIDS pela CARE Canada, COCAMO (Cooperação
Canadá-Moçambique), ICAD (Coalizão
Internacional sobre AIDS e Desenvolvimento - Interagency
Coalition on AIDS and Development), e PAC (Parceria África-Canadá
- Partnership Africa Canada).